Domingo, Novembro 01, 2009

O Colégio Militar – uma polémica sem sentido



___

Só há relativamente pouco tempo o mundo acordou para o flagelo das crianças-soldado. Um pouco por toda a parte em que a insanidade campeia sob a forma da mais inane barbárie, crianças de tenra idade são arrancadas ao seio das suas famílias para serem usadas como soldados. A geografia da abominação é difícil de circunscrever, mas as mentes que cultivam a sanidade não terão dificuldade em apreender-lhe os contornos e a reconhecer-lhe mesmo os traços mais sujeitos à erosão, posto que o esquecimento de que o sentido da História deve advir do respeito pela dignidade humana, em todas as suas instâncias, é o principal agente responsável pela desumanidade em que vivemos neste mundo globalizado e sujeito ao império da indiferença e da estupidez, outro nome para a economia sem valores humanos nem valia espiritual.
Em qualquer Burundi que se preze colocar crianças de 10 anos num colégio interno gerido de acordo com as normas militares, pode ser visto como um exemplo de boa pedagogia, ou de ‘ensino de excelência’. Mas não num país que queira estar à altura duma missão histórica (vamos, por momentos fechar os olhos, fazer muita força e tentar dar sentido a isso sem termos que arcar com despesas de lavandaria) ligada à fraternidade e à expansão da Cultura emancipadora, tal comportamento cavernícula só pode ser objecto do mais intenso repúdio.
As instituições pretéritas devem merecer o nosso respeito. E esse respeito deve consubstanciar-se na busca de formas cada vez mais humanas de construção de sociedade. É preciso não esquecer que a sociedade é uma criação colectiva, a principal criação cultural, na qual devem ser envolvidos todos os indivíduos, num esforço para diminuir a exclusão e a marginalidade. E esse esforço deve centrar-se, acima de tudo, na educação. E não devemos esquecer que a par da marginalidade dos ‘miseráveis’, dos deserdados, há a marginalidade dos privilegiados, dos ‘herdeiros’, daqueles que cultuam uma falsa aristocracia assente no ter e no poder do dinheiro.
E num Estado como o português que tutela um sistema educativo submetido aos seus imperativos constitucionais, a Escola Pública deve ser considerada uma instituição de excelência e a sua estruturação deve ser paradigmática no que se refere ao funcionamento das instituições de ensino, de acordo com os valores fundamentais da civilização (ou seja, da emancipação do humano face a qualquer tipo de tirania ou usurpação) e, também, com os princípios da mais válida pedagogia – e aqui é preciso não esquecer a investigação que se faz nessa área e que mostra à saciedade que modelos de organização escolar como o do Colégio Militar (para não falar das outras escolinhas de militares de palmo-e-meio, nenhuma delas inofensiva) contrariam tudo o que contribui para um desenvolvimento equilibrado e humanamente integrado da Pessoa.
Uma instituição pública de ensino, ainda por cima tutelada por dois ministérios, mesmo que cobre os encarregados de educação, mensalidades astronómicas para a bolsa do comum dos cidadãos, não pode funcionar de acordo com os princípios que presidem ao funcionamento do Colégio Militar. A haver colégios de excelência, numa sociedade democrática e civilizada deveria ser para contribuir para a igualdade de oportunidades e a promoção da justiça social.
Uma instituição destas deveria ser privada. Penso que qualquer grupo social pode criar instituições de ensino e lembro aqui as ordens religiosas que mantêm colégios de elite que perpetuam as desigualdades, mesmo quando o seu ideário as deveria colocar em linha com os pobres e a luta contra a pobreza. Desde que cumpram a Constituição e a legislação do Estado português, são livres de o fazer. Cabe ao Estado contrabalançar este desequilíbrio, fazendo uma redistribuição da riqueza virada para a promoção da Pessoa desde a mais tenra infância.
Quem quiser criar os seus filhos num colégio ‘disciplinador’ que o faça, mas em instituições sem capitais públicos. E a matriz militar deve ser própria da instituição militar, pelo que qualquer instituição de ensino, pública ou privada, destinada a menores deve estar fora dessa matriz – o militarismo não é próprio para crianças e adolescentes. Esse aleijão axiológico deve até ser progressivamente extirpado da nossa sociedade e essa deveria, também, ser uma meta a abraçar pelo mundo e, também, pelo mundo lusófono – a extinção dos exércitos, a promoção duma civilização da Paz.
Pode ser impossível alcançá-lo no quadro da geopolítica, mas dentro da Escola esse deve ser o horizonte. A Escola deve ser o Império do Espírito Santo – ou seja, a liberdade criadora, capaz de abraçar o mundo com uma onda de pureza. Mas, infelizmente o Mestre Agostinho só serve para foguetórios e para fomento, em muitos casos, da egolatria. Há que pensá-lo a fundo. Mas isso será, para nós, uma Perdição. Quem aceita fazer-se ao mar?
Um ensino demasiado centrado nas competências cognitivas, sem um enquadramento sócio-emocional das crianças e dos adolescentes (a família é o principal agente de socialização e a instituição social mais apropriada ao fomento do crescimento sadio das crianças – veja-se, a este propósito as investigações de Harlow, e de outros psicólogos e pedagogos, que demonstram que até os primatas não humanos carecem de afecto para o seu desenvolvimento), não é adequado.
O ser humano necessita de afecto para crescer e viver à altura da sua vocação suprema: o ser humano entre humanos. A educação do futuro deve assentar na compaixão e na busca de sentido. Não na sujeição cega à autoridade e à criação de uma auto-imagem junto das crianças e adolescentes assente num conjunto de coordenadas de discriminação e de rejeição da dignidade de cada um dos seres humanos.
A sociedade não é uma caserna. E o amor maternal, paternal e filial são um cimento que nenhum sucedâneo pode substituir, nem um ‘graduado’ que dá o comprimido à noite com a mesma dedicação com que dá a lambada ou o castigo. Os pais é que devem estar à cabeceira dos filhos. E as mães.

Sábado, Setembro 20, 2008

A Metafísica do Amor


O fim. O inicio.

Acabou o meu verão. Acabaram as férias (de infância). Não por este ano mas para o resto desta vida. Fui há duas semanas a casa da minha avó. Chorei ao abrir a porta da despensa. E comparar o que vi com a imagem que tenho no meu computador. Os tachos continuavam reluzentes, mas faltava vida a tudo. Sentia-se uma aridez, um frio tremendo. Como se com a morte dela tudo aquilo em que ela tocava normalmente se tivesse resignado, deixado estagnar. A embaciar de dor.
Nada diz mais que uma pessoa morreu do que abrir, escancarar os móveis que dantes se abriam, devagarinho, sem fazer barulho e para onde se espreitava com a curiosidade ingénua das crianças. Separar posses. Distribui-las por sacos plásticos. Virar gavetas do avesso. Desmembrar guarda-fatos...
Sempre senti aquela casa como se fosse parte de mim. Conheço-a de cor. Cada rebordo, cada canto, cada esquina.
Lembro-me daquelas noites quentes de Verão (sim, quando era criança o verão ainda era quente) em que o vento sapateava pela rua do Pedaço acima e se lembrava de entrar pelos postigos da sala. Fazia rodopiar as cortinas que lançavam sombras longas pela casa. Irremediavelmente levantava-me, ia espreitar o silêncio da rua, sorver o calor do vento. E fingia ser tudo entre sala e quarto. Princesa, heroína, meretriz, mártir, feliz, infeliz.
Acordar de manhã com os barulhos do Pedaço. A mota do vizinho. A padeira. Os pregões da peixeira. O barulho da cafeiteira para aquecer o leite a pousar nos bicos do fogão. Aquele fogão pequeno entre o borralho gigante e a chaminé imensa. O cheiro da pomada e spray para os ossos. Aquele cheiro de limpeza absoluta e carinhosa que se lançava de cada superficie. As vizinhas a abrirem o portão, a passarem pelo pátio e a entrarem: "Precisas disto? Vou ali ao mercado e..". "E a menina?" "A menina está a dormir."
E a menina já tinha acordado. E voltado a adormecer. E escutava deliciada as conversas da rua.
Sempre me fascinou a vida assim. Toda a gente nos conhecer. Ver-nos crescer. Alternar entre beijinho na bochecha e festinhas no cabelo. A amizade. O companheirismo. Se uma vizinha estava doente, as outras faziam fila à porta dela para se oferecerem para toda e qualquer tarefa. Sempre me fascinou a troca de pratos de arroz doce em dias assinalados. A broa de abóbora.
As tuas amigas, colegas de carteira e de porta fazem parte do meu imaginário de infância também. A senhora Maria Pinta e a sua casa sempre branca com debruns verde forte. A Rosa Rebola e os suspiros, sequilhos e fusis. A Gilda, com o rádio eternamente ligado. A senhora Leonilde e o senhor Joaquim, que sempre me pareceram, desde pequena, um casal de gnomos bondosos. E tantos, tantos outros.
Lembras-te daquele senhor capitão baixinho, que andava sempre de boina e tinha uns olhos mais azuis do que quaisquer que vi até agora? Como ele fingia que me vinha fazer cócegas quando eu estava ao portão para eu correr para dentro a gritar e a rir ao mesmo tempo? Não me recorda o nome dele...como era, vó?
Nunca soubeste que eu tinha um fraquinho pelo Nélson. Esse da casa em frente. Que o ouvia virar para a rua, à noite, à distância, e me ia pespegar ao postigo para não perder um instante. O barulho da chave na porta. O ranger da porta no soalho. O arrastar. clac clac. A luz do quarto que se filtrava pela persiana permanentemente (mal) fechada. Esperava mais 5 minutos até a calma regressar. Às vezes sentava-me ainda por breves momentos, a apreciar o silêncio. Só quebrado pelo relógio da cozinha (que se ouvia em toda a casa) que agora marca incessantemente as horas aqui ao meu lado.
Lembro-me dos cheiros todos. Do refogado que atravessava o pátio e vinha ao meu encontro mal abria o portão vinda de qualquer recado. Da sopa de feijão inchado. Do arroz doce. Da pá do leite creme a queimar o açúcar e a canela. Do Omo que gostavas de usar para lavar a louça, até a minha mãe te convencer do virtuosismo do SuperPop Limão. Do louro pendurado no fio do pátio. Do café levezinho da tarde. Dos cachorros que fazias com pão, manteiga quente e salsicha.
Cheirava tudo...cheirava tudo a amor. A emoção.
Já te disse que tudo ganhava vida nas tuas mãos? Não só as panelas que tanto areavas. Tudo. A renda. A roupa presa a secar. Tudo...Até as andorinhas voltavam todos os anos para o teu pátio não para te chatearem, mas porque gostavam de ti. Nunca te disse esta, pois não avó?
Senti, naquela tarde de segunda-feira, que se me acabava o verão. Não há mais rádio da Gilda, o Nélson (casado e com filhos) há anos que já não mora ali, longe vão os suspiros e cada vez mais raros são os pratos de arroz doce. As faixas verdes da casa da senhora Maria desbotaram. Está para venda. O senhor capitão....ainda eu era pequena e ele já tinha morrido. Não morrem os olhos azuis na minha memória.
Já não há histórias de antigamente. Já não ouço as anedotas do teu café. Quem é que tinhas atado ao pé da mesa ao certo? :) Já não ouço as vizinhas a perguntarem se precisas de algo nem o toque da padeira. Já não vou aparar o pão há séculos. A minha mãe tem alguns dos sacos de pão lá em casa. Aqui soa o relógio, vela a tua mantinha e estendem-se as passadeiras.
O meu verão morreu. Já te tinha dito? Não importa que não o passasse aí em casa nos últimos anos. Não interessa que, ultimamente, nem tu lá estivesses. O meu verão, a minha infância, era, e sempre foi, aquela casa, os sons, os cheiros, os sabores, e tu.
Morreste avó...mas juro que te vi sorrir na foto em que preguei os olhos a caminho do cemitério. Eu e as minhas primas com as chaves na mão. Não queria ir, sabes...
Quando me despedi de ti apertei-te a mão e ela estava quentinha e macia. Como sempre. Desde que sou gente lembro-me sempre de ti assim, vó.
Nunca te cheguei a dizer que te amava pois não? Nunca o ouviste? Mas sabia-lo.
Nem acredito que o meu verão acabou (assim)...
Brida, http://www.maosvazias.blogspot.com/
_____________

Chega um momento da nossa vida em que o Verão tem que ser segregado de dentro do nosso coração. É um testemunho que nos é passado por quem teve a Graça de nos instaurar como os destinatários do Verão.
Não será por acaso que o nosso ascendente, quase sempre, é o signo solar de um dos nossos avós. O acaso é um dos sortilégios do Verão.
E faz parte do assumirmos a nossa herança solar vivermos a partida de quem na nossa vida se repartiu, se deu a comer e a beber, nessa eucaristia dos afectos e das presenças, nessa entrega totalmente grácil.
E não encontro palavras para te dizer o quanto partilho da tua dor. Prefiro dizer-te do Amor e de como nunca o perdemos, de como ele nos eleva e nos torna aráveis e fecundos. Aí assoma sempre o futuro, levedado, alvo, irrevogável e sempre resguardado dos nossos medos.
Temos, pois, que deixar partir quem parte em direcção à fonte suprema do tempo, lá onde as águas são sempre puras e as almas assumem a verdade da memória e do esquecimento. Deixar partir quem já não é nosso porque nos deixou tudo. E é com esse infinito que temos que alimentar os que nos chegam. Também nós partiremos e só levaremos o que não é nosso, o Amor, essa chama que nos aproxima, por vezes sem sabermos porquê, de seres com uma vibração igual.
E vale a pena vivermos a entrega plena ao Amor. Mesmo quando a dor nos parece insuportável. Mesmo quando ficamos rasgados por dentro e deixamos de nos saber. É preferível isso do que acreditarmos na morte ou no medo, ou na vida sem errância e sem entrega.
E assim, também, nos desfazemos e nos podemos tornar incompreendidos. Mas essa incompreensão prepara-nos para o Verão. É ela que faz regressar as aves do eterno que navegam os ares na demanda do Sul.
E, então, o Amor ilumina-nos por dentro, de dentro, bem de fora de nós e do tempo em que não nos sonhamos. Essa a nossa grandeza. Por isso há encontros que iluminam a nossa vida, mesmo que nos sintamos obscurecidos pela intensidade da luz que nos chama para um novo Verão. É esse que nos consumirá e nos conduzirá à saudade dos que ficarão.
Partir não é, então, uma traição, nem ao Amor, nem a nós, nem à vida. É uma precisão que nunca entenderemos. Porque agora não somos isto que, camada, sobre camada, encapsula o Vivo Amor de que somos a expressão, essa luz claríssima que nenhuma gramática enclausura, que nenhum desejo dissipa, que nenhum discurso alcança. Por isso, em verdade, nunca partimos, repartimo-nos mas não nos partimos. E não há distância se aprendermos a recolher-nos no Amor.
Por isso Agostinho da Silva tem razão quando diz que amar é fazermo-nos ao mar. E fazermo-nos ao mar é tornarmo-nos embarcadiços. E isso é sonharmos com a Ilha, mesmo que não saibamos como aportar nela. É que os encontros decisivos não podem ser forçados e o maior dom que podemos conceder aos que amamos é a soltura. Só isso os poderá resgatar do medo e da morte. Mas devemos viver isto sem desistência. Sempre sem desistência.
Como a brisa da manhã, logo extinta mal damos conta dela, assim também o hálito dos que nos afagam se extingue, marca da suprema entrega, sinal do que em nós nos sagra mais do que a vida.
Que o Amor se cumpra então, hoje e sempre, nas nossas vidas, marcadas pela brevidade e pela festa de nos sabermos unidos por um mesmo fogo, inextinguível, total, absoluto e absolutivo.

Domingo, Setembro 14, 2008


Vou Ser Senhor do Mundo

Vou falar com o Pássaro-Rei,
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
para eu voar
e ir poisar no tecto do mundo.

Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro,
em senhor da terra,
senhor das águas,
senhor dos céus,
senhor do Mundo.

Mas é se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no tecto do Mundo.

E porquê ele não me faz o favorzinho,
se lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: — Por favor?

Jorge Pedro Barbosa
____________________

É importante, quando formos falar com o Pássaro-Rei , que saibamos pedir, e pedir "por favor".
É uma lição interessante, posto que pedir não deve implicar servilismo. Se pedimos usando o outro como um mero dispositivo de satisfação, ou de gratificação, para além de estarmos a investir nisso uma parte importante das energias que nos são necessárias para sermos em verdade, estamos a recusarmo-nos à sua humanidade. O que é algo que não devemos, sob circunstância alguma, fazer com o Pássaro-Rei.
O milho torna-se grácil quando dizemos "por favor". Não se trata de um suborno ou de um pagamento. A instância que move a resposta ao nosso pedido não será essa.
O segredo está no pedir, no sermos capazes de pedir. Porque há formas de pedir que nos impedem de sermos em verdade. Porque todos nascemos com uma irrevogável soberania sobre o mundo: a de no mundo sermos nós próprios. E neste sentido, todas as outras formas de soberania são uma espécie de simulacro de Pássaro-Rei. Porque o autêntico Pássaro-Rei é o que em nós nos eleva. Trata-se, portanto, de uma realeza que nos pode fugir se a assustarmos.
Daí a importância do milho.
Todas as formas de servilismo são degradantes. Daqui se depreende a importância do Serviço. E serve quem não se serve, posto que quem se serve é servo. O Serviço é, pois, a prática por excelência da insubmissão. Não nos submetermos significa que não aceitamos qualquer forma de degradação daquilo que somos e daquilo que os outros são. O que está bem patente na seguinte quadra de Agostinho da Silva:

“A quem jamais me dá ordens
faço o que não apeteço
mas sou contra se alguém manda
pois sirvo, não obedeço.”

Muito se poderia falar da liderança pelo exemplo. Os autênticos líderes são os que fazem primeiro, os que se fazem ao camin
ho, e o fazem a partir da sua necessidade de caminhar. Assim há líderes que não sobem aos palanques, nem se assumem sob os holofotes mediáticos. Estes últimos são servos e servis. Servem, primeiro a sua ambição, servem, depois e sempre, as vontades alheias.
E como vivemos numa sociedade movida pela crença de que tudo se compra, esquecemo-nos que só se pode comprar o que é posto à venda. Ora, há coisas que não se vendem, ou por não haver quem se queira assumir como seu vendedor, ou por não serem vendáveis, não sendo, por isso, compráveis. Mais uma quadra agostiniana:

"Para tantos existir
é uma queixa pegada
terem de ganhar a vida
quando afinal lhes foi dada."

Uma das coisas mais tristes a que podemos assistir é o clima de competitividade que se vive por todo o lado e, de forma muito percuciente, na escola. Estamos a educar bestas. Em vez de levarmos a que cada um dos alunos se descubra e se assuma como o seu mais importante projecto, o que o levaria a encontrar-se verdadeiramente com os outros, nos outros e na sua liberdade grácil, fomentamos o medo de falhar e a insatisfação, a inveja e a auto-punição. O medo de existir instaura a vida como uma guerra em que só os que forem mais "aptos" têm o direito de sobreviver.
Mas nós não nascemos para sobreviver, mas para viver. Ninguém deve querer ultrapassar a sua vida, deixando de viver. Se bem que exista algo em nós que não é nós nem é nosso, mas isso só será assumido se formos vivos. E enquanto somos vivos somos Pássaros-Rei. E sempre que estivermos coligados ao nosso coração, estaremos no tecto do mundo.
Há tempos, meio a brincar, disse a um colega que o mais profundo tratado de pedagogia jamais escrito, é a Arte da Guerra do Maquiavel. E o homem, para meu espanto, leu a obra e veio concordar comigo. Eu ouvi-o com atenção, meio a brincar. Mas há brincadeiras que têm resultados funestos. Mas no fundo quase todos os tratados de pedagogia, mesmo os das assim chamadas ciências da educação, são variantes, mais ou menos refinadas, mais ou menos seráficas, da Arte da Guerra. Não foram os génios do pentágono que inventaram a guerra "limpa", sem danos colaterais e sem a morte de soldados "amigos". É claro que neste caso isso se trata de uma utopia propagandística. Os verdadeiros inventores da coisa são as cabeças pensantes da pedagogia. Castiga-se sem castigar, ensina-se sem ensinar, mata-se sem matar, vive-se sem viver. E quando os mortos-vivos saem da escola, atiram-se sobre o que mexe para satisfazerem a sua egolatria. E a coisa pega-se.
Estamos, então, muito longe daquela máxima de S. Agostinho, "ama e faz o que quiseres". É claro que não é necessário ir tão longe para dar milho ao Pássaro-Rei. Todo o milho é do Pássaro-Rei, por isso ninguém lhe dará nada ao dar-lhe milho.
O problema é ele descobrir como abrir a gaiola.

Terça-feira, Setembro 09, 2008

Quinta-feira, Setembro 04, 2008

É possível uma via compassiva em política?

Em primeiro lugar, há que precisar o que se deve entender por 'via compassiva'. E considero que só há uma forma de entender este conceito: trata-se de colocar a compaixão (conceito que não carece aqui de definição) no centro de toda a acção, de toda a reflexão, no fundo, considerá-la a base da nossa compreensão do mundo e da nossa relação com os outros.
Neste sentido, a ética será colocada no centro de toda a intencionalidade, quer esta esteja dirigida para o agente, quer o esteja para os outros. Trata-se duma ética e não duma moral, pois o que está aqui em causa é uma atitude perante a vida e não um sistema de normas assente numa constelação de crenças instauradoras de separatividade.
Trata-se, então, duma ética da aceitação, paradoxalmente, ou não, assente na rejeição do conceito moderno de tolerância (como bem viu o Mestre Agostinho). Nós não temos que tolerar os outros, mas temos que aceitar a sua irredutível diferença, o carácter supremo da sua existência.
Mas a aceitação não deverá ser uma adesão cega, uma vez que a ética da aceitação só poderá afirma-se em ruptura com o relativismo axiológico que se tornou um a priori das sociedades ocidentais, ou de matriz ocidental, e que tem como pólo de co-legitimação o monolitismo e o fanatismo que alimentam todas as formas de intolerância cega mobilizadora das massas.
Neste sentido, há que desenvolver uma prática da intolerância: é intolerável que se morra de fome; é intolerável que qualquer ser humano seja tratado como inferior, seja em que contexto for; é intolerável que o obscurantismo, sejam quais forem as suas formas, seja assumido como fonte de verdade; é intolerável que em nome de princípios de carácter político, filosófico, religioso, ideológico, se vilipendiem seres humanos; é intolerável a crueldade para com os animais, etc., etc..
Então, uma via compassiva em política por si só seria bastante “revolucionária”, porque, primeiro, levaria a uma transformação, desde o interior, dos agentes da mudança. Seria aí, nesse campo muitas vezes negligenciado, que se travariam as batalhas mais titânicas: em vez de procurar na negatividade dos outros razões para os conflitos e para os fracassos (mas às vezes ela também nos concede vitórias), procurar-se-ia as bases da concórdia, uma vez que a autêntica concórdia não anula as diferenças entre pontos de vista, nem a radical alteridade dos outros.
Essas bases estão no coração. O problema é que poucas pessoas acreditam que possa existir no centro do seu peito algo mais do que uma bomba para fazer circular o sangue e, muitas vezes, para detonar a incompreensão, fonte de quase todos os derramamentos de sangue.
Mas há algo para além disso. Há a possibilidade de iluminar a realidade com uma luz que não cega nem inquina a visão. E é à luz dessa luz que se pode ver a autenticidade, a nossa e a dos outros.
E a concórdia (que não devemos confundir com concordância), colocada no centro do viver humano, levaria à rejeição de todos os dispositivos geradores, ou veiculadores, de discriminação e de agressão. E todas as tomadas de decisão assentariam no princípio, eticamente intocável, da não-violência.
Sendo assim, a concórdia colocada como base de entendimento, faria com que a autenticidade da lusofonia se tornasse uma evidência e uma prática. O pior que pode acontecer será o encastelamento em posições inamovíveis e a construção de muros e a imposição de barreiras. Os que se nos opõem não são nossos inimigos, apenas nos mostram que há um caminho a trilhar, que há um espaço mais vasto do que o que nós assumimos para a nossa afirmação da verdade.
E aqui surge a questão dos interesses. Os interesses particulares são legítimos, seja o dos indivíduos, seja o das pessoas colectivas que aceitam o jogo democrático, ou o funcionamento civilizado das sociedades. O único senão é que a prossecução dos interesses particulares, sem uma orientação para o que transcende a particularidade, pode gerar frustração e, com isso, sofrimento e o agudizar da conflitualidade.
O campo da política terá que ser assumido como um horizonte onde os interesses particulares possam ser compossíveis com os interesses colectivos, ou mesmo universais, considerados,estes últimos, como superiores e “intocáveis”. Neste sentido a Declaração Universal dos Direitos do Homem aponta uma via, embora essa seja ainda insuficiente.
Esses “interesses” universais assentam em vários princípios, de entre os quais gosto de destacar o seguinte: cada ser humano é supremo.
Mas não se trata aqui duma antropolatria, mas de um princípio de uso pragmático – é útil partir-se do respeito incondicional pela pessoa humana, seja qual for o seu estatuto social, cultural, político. É útil porque impede que deixemos nascer em nós a aversão e o egotismo fricativo. É útil, também, porque fará diminuir a carga de sofrimento que subrepuja a humanidade neste nosso mundo acabrunhado pelo terror e pelo deserto espiritual.
E, assim, antes de julgarmos os outros, devemos reflectir sobre o que é que nos instauraria como juízes dos outros, ou mesmo de nós mesmos, com base em princípios heteronómicos.
Mas aquele princípio é solidário com uma série de outros. Por exemplo: todos os seres têm direito ao bem-estar e à felicidade. O que significa que temos o dever de respeitar a vida, em todas as suas formas, e promover a afirmação da vida, ou de deixar que a vida se afirme. O que pode significar que não podemos ser obstáculo à afirmação do que é diferente de nós e, muitas vezes, nos supera, o que que pode ser observado na forma como os seres humanos se relacionam com os problemas ambientais.
Não se trata, portanto, de procurar implementar um governo “dos melhores”, uma aristocracia, mas de deixar que o Bem nos governe, que sejamos governados pelo melhor que há em nós. É claro que todos temos, homens e países, fantasmas no armário, todos vivemos a dialéctica da luz e da treva. Mas a treva e a luz não são confundíveis, embora o seu confronto possa ser causa de legítima confusão.
E voltando à questão inicial, há que colocá-la no centro da nossa vida: é possível uma via compassiva na nossa vida? Há aí uma via?
E o problema não é de somenos: pode haver aí a tentação da passividade ou do contrapolar voluntarismo. O mesmo se passa no campo da política.
A paciência pode ser confundida, se vista de fora, com passividade. O desejo de ajudar pode, igualmente, ser confundido com uma forma de idiotia ou de “palermice”. Mas não nos devemos inquietar com a possibilidade de padecermos duma espécie de complexo de Forrest Gump. Porque a autêntica nobreza nasce da compaixão. A que também podemos chamar amor e, se olharmos à Carta aos Coríntios, da autoria de um dos maiores poetas que já se fizeram ao mundo (ou ao mar), isto seguindo a lição de Pascoaes, há formas de amar que são pueris e, neste caso, nem a língua dos anjos, nem a mais alta “sabedoria”, podem substituir o amor adulto, ou seja, levedado, com o qual nos levantamos do chão e através do qual nos unimos à luz do mundo, a verdade, “lusa” que significa, “portadora de luz”. A Luz talvez nunca saibamos de onde vem. Basta que saibamos acolher o que ela ilumina.

Segunda-feira, Setembro 01, 2008

Terça-feira, Março 20, 2007

Contemplação



não te esqueças
que obtiveste esta preciosa vida humana
para seres gente
que o Sol que há em ti e que te é
briha mais que o disco solar que inunda de luz as manhãs dos teus dias

não te esqueças
que os teus olhos não são teus
mas do que através deles se mostra
que a luz que por ti passa vem de nenhum lugar

não te esqueças
que tudo o que vês nunca foi
que tudo o que és nunca existiu
que tudo o que queres te amarra
à ilusão da permanência e da separação

____________

Quão preciosa é uma vida humana?
É impossível dizê-lo por palavras que possam andar à solta fora dos corações que as habitam, que elas habitam, sem haver, com isso, um habitar que recuse a errância, a perdição e a auto-descoberta...
A vida humana é um convite do Universo.
Não nascemos só porque tem que ser. Há mais coisas envolvidas no nascer. Em primeiro lugar, a nossa libertação de tudo o que nos impeça de querer o que quisermos, humanamente ou não, alcançar.
E aí o sofrimento tem um papel decisivo, pois ele é a materialização do que nos impede de acedermos ao tal convite universal. É a materialização da nossa recusa essencial de nos vermos como a luz do mundo, imunda e munda, mundana e secreta, aberta e fechada, rosa e espinho, e oceano e praia batida pelas vagas das tormentas sem razão outra que a sua dança de sal e espuma, luz, bruma e esperança de não encontrar.
A partir do momento em que aceitamos ser qualquer coisa, deixamos de ser a criança que o infinito trouxe às teias mágicas da Ilusão. O nascimento é só mais uma cisão e a ruptura do amplexo oceânico que nos trouxe, em corpo de mãe e alma de recusar-se a nascer, como uma promessa que ninguém, nem nós mesmos no mais íntimo, terá que cumprir.
Teremos,pois, que passar o resto da vida a unir, para podermos remediar a tragédia cósmica do acto de parir que tanta dor semeia no mundo. Não dá para querermos ser mais do que essa tentativa, sempre aventurosa e perdulária, de não sermos nada para sermos aquele tudo que não é.
Se quisermos ser mais do que isso ficamos presos na teia do desejo e da frustração, do medo, da angústia e da permanente escolha do que não podemos ser em verdade.
O problema é que a compreendsão disso é um não compreender.
Tal como um vidro cristalino e imaculado, o que nos dá a ver a beleza do mundo não SE vê. E depois há os outros, homens animais e os seres dotados de mente, que, também eles, são o infinito a não ser. Quantas vezes nos agarramos à ilusão de que somos mais do que uma formiga, um cão, um gato ou uma pulga. E quando nos cruzamos com os preciosos seres que partilham connosco a humanidade, as teias da ilusão fazem-nos esquecer que a nossa história é a historia do próprio universo que, tal como a ciência vem demonstrando, propriamente não tem história, porque está sempre a recomeçar.
Mas falar em outro é permanecer na dualidade, como apelar a um uno que a si mesmo não se negue será criar uma torre de marfim ontológica que acabe por inaugurar uma tradição que tem, no seu termo, umas bombas atómicas e tudo o que de não escatológico tem a bestialidade humana.

Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

A pena de morte em questão


 
A recente execução da condenação à morte de Saddam Hussein levanta uma série de problemas éticos, respeitantes à dignidade da pessoa humana e ao que se espera de uma sociedade civilizada.
É certo que Saddam Hussein foi um dos mais sangrentos ditadores da história recente, a par de Pol Pot, Augusto Pinochet e tantos outros que ficaram impunes, como os generais argentinos que nos anos 70 são responsáveis por mais de 30000 mortos. A lista de países que neste preciso momento estão a viver sob regimes ditatoriais, ou totalitários é imensa. Muitos deles contam com o apoio das democracias ocidentais.
O principal problema que se coloca em relação à pena de morte está ligado com a inviolabilidade do direito à vida, consagrado como o primeiro dos Direitos do Homem. Esse direito é absoluto, ou o dever de o respeitar admite excepções?
Por outro lado, matar, em geral, bem como no caso do acto de matar um ser humano, em si, é um acto mau, hediondo, pois trata-se de aniquilar um ser humano, de eliminar uma vida. Mesmo sem recorrer a argumentos de carácter religioso, é fácil de admitir que o acto de matar é terrível, mesmo que seja executado para punir crimes de genocídio, como foi o caso de Saddam Hussein.
E a execução de Saddam Hussein revestiu-se de pormenores no mínimo chocantes:
a) foi filmada e exibida nos meios de comunicação do mundo inteiro;
b) o condenado foi agredido verbalmente por membros da assistência que, para cúmulo, gravaram imagens não oficiais da execução.
c) o processo judicial decorreu de uma forma precipitada e decorriam processos contra Saddam Hussein que ainda estavam longe de estar concluídos, pelo que a sua presença, enquanto responsável máximo por crimes contra a humanidade, era fundamental para que se fizesse justiça, independentemente do desfecho desses processos.
Há anda argumentos de carácter circunstancial que agravam o quadro em que decorreu a execução, embora sejam irrelevantes no que respeita ao problema da pena de morte: o clima da guerra civil que se vive no Iraque aconselhava que Saddam não fosse executado, uma vez que isso pode contribuir para um agravamento da situação; o facto da data da execução ter coincidido com a peregrinação a Meca, uma das festividades mais importantes do mundo islâmico, pode constituir um desrespeito pelas práticas religiosas do mundo árabe, ajudando a extremar ainda mais os fanatismos e a intolerância. Outro argumento que pode ser aduzido contra a execução de Saddam Hussein é o facto da sua execução o poder transformar num mártir da causa sunita.
Estes argumentos são irrelevantes no que respeita à inaceitabilidade da pena de morte, pois se considerarmos a vida um valor supremo, nada poderá tornar aceitável qualquer tipo de acto contrário à vida. Logo, sendo esse o caso, a pena de morte é inaceitável.
Mesmo que a execução de Saddam Hussein pudesse garantir a paz no Iraque, isso não a tornaria aceitável.
Se estamos perante um ditador que foi conduzido ao poder pelas potências ocidentais, principalmente pelos Estados Unidos e se foi mantido no poder enquanto isso satisfez os interesses ocidentais, mesmo sabendo que Saddam usava armas químicas contra o seu próprio povo e era responsável pela tortura e pelo assassínio de milhares de iraquianos, para não falar na guerra com o Irão que dizimou mais de um milhão de vidas, era justo que a sua condenação revestisse a forma de prisão perpétua sem direito a liberdade condicional. E era igualmente justo que os países ocidentais se responsabilizassem, quer em termos económicos, quer em termos logísticos, pelo cumprimento dessa sentença.
É preciso não esquecer que a dignidade da pessoa humana é um valor que não depende de credos religiosos, de origens étnicas ou de quaisquer outras condicionantes. Todos os seres humanos devem ser respeitados na sua condição de pessoa, mesmo os que não respeitam a dignidade das outras pessoas. Não é aceitável a pena de morte, nem a tortura, nem qualquer forma de tratamento indigno para além da privação da liberdade e da imposição das condições de segurança necessárias a que essa privação possa ser efectivada, na sequência de um julgamento justo e imparcial.
Isto porque os seres humanos partilham a mesma condição e são portadores da mesma possibilidade de compreensão e de vivência do infinito, para não ir mais longe.
Cada homem possui uma vida limitada, frágil, sujeita a condições que lhe conferem um carácter supremo. Aceitar a ideia de que há homens que jamais conseguirão ser portadores de bondade ou de uma inteligência compassiva, é admitir que a bondade e a compaixão são apenas algumas das vias que estão abertas à humanidade, o que diminui, fragiliza e ameaça de extinção o ideal de que a paz, a fraternidade e o respeito incondicional pela dignidade da pessoa humana devem ser os grandes objectivos da presença dos homens no mundo.
Isto deixa a porta aberta para a continuação da exploração do homem pelo homem, da discriminação económica, social, racial, religiosa, em nome de valores e de princípios em tudo alheios à promoção da pessoa humana como aquilo que mais vale a pena, a par do respeito pela vida no seu todo, encarada como a alma frutificante do planeta Terra.
Assim, em nome de interesses económicos, muitas vezes escusos e envoltos em práticas criminosas, continuamos a considerar que é normal e aceitável a destruição do meio ambiente, que é normal e aceitável que morram milhares de seres humanos na epopeia dos tempos modernos, ou seja, na viagem tormentosa em busca de uma vida melhor nesta terra da promissão que se está a transformar numa Europa-fortaleza, alheia ao sofrimento da metade sul do planeta, cada vez mais empobrecida e explorada pelo economicismo rapace dos países ricos.
A existência da pena de morte em muitos países do mundo dito “civilizado”, não é a prova de que há algo de irredutivelmente mau na natureza humana e que a humanidade se pode facilmente dividir em boa e má, mas, pelo contrário, é um evidente sintoma da mais grave perversão de que os seres humanos são capazes: o considerarem que parte do dinheiro do mundo, ou todo o dinheiro do mundo, vale mais que a vida, a felicidade e a realização pessoal de qualquer um dos seres humanos.
Falta ainda ver o que se passa no coração (sim, no coração) de todos aqueles que exultam com o espectáculo da morte de Saddam Hussein ou de qualquer outro condenado à morte. Cada uma dessas pessoas é tomada pelo ódio, talvez por razões muito fortes, e recusa-se a aceitar que existam outras vias para além do ódio, outras respostas para além da morte e da mortificação da esperança.





Domingo, Dezembro 31, 2006

Um Novo Ano


O facto de usarmos um calendário, leva a que, pela força do hábito, acabemos por seccionar o tempo em blocos compartimentados que geram a ilusão de regularidade e de continuidade mecânica e objectiva.
O mecanicismo, nascido durante o renascimento e amadurecido no século XVIII, levou a que o homem ocidental representasse o universo como um relógio gigantesco, construído e posto a funcionar por um relojoeiro supra-humano, uma mente tecnocrática e completamente desligada das minudências da vida humana.
A cadência monocórdica dos mecanismos de relógio acabou por invadir até as mais livres manifestações da alma humana, caracterizada pela criatividade expansiva. A música ocidental é um reflexo disso mesmo, pois a ideia de ritmo que se instalou como natural deriva desse movimento de mecanicização da natureza.
Mas o tempo é ritmo. A vida é rítmica.
Mas o ritmo não supõe apenas regularidade, incorpora a ideia de mudança. A ênfase na regularidade é uma teimosia da mente humana que não suporta a mudança, uma vez que esta anda, muitas vezes, de mãos dadas com o sofrimento.
Não há duas Primaveras iguais. Mas existe um ciclo que faz com que as estações se sucedam, de forma regular, sim. Há uma necessidade a operar na Natureza, mas nada que se assemelhe a um relógio, a uma máquina, ainda que gigantesca e habilmente construída. Na Natureza não há "habilidade", só o homem é hábil, desde tempos primordiais que a inventividade técnica ganhou a dianteira, pois a criatividade pura, quando emerge, é livre de constrangimentos e, demasiadas vezes, vem e parte em silêncio.
Cada ser humano tem o seu ritmo, a sua história universal. Cada vida é uma sinfonia que engloba o vivente e o todo cosmico. A sinfonia cósmica é um emaranhado, caótico (o caos é a principal força genesíaca) e, ao mesmo tempo, racional. Por mais que se implementem estratagemas para a colectivização do tempo e para a regularização dos ritmos de vida, nada consegue oblitar a verdade essencial que cada ser humano (ou cada ser senciente) traz consigo ao nascer: cada homem é o primogénito o Infinito; cada vida é única e em cada vida joga-se o destino do universo inteiro.
Por isso o novo ano que começa é apenas uma construção colectiva resultante dum calendário que uniu povos e teceu história.
Cada dia é novo.
Os anos são dias contados. E para contar, há que descontar: para contarmos os dias temos que os reduzir a uma expressão simples, a uma data. Há um dia em que nascemos, um dia em que morreremos, há dias em que estamos felizes, dias em que sofremos, dias que aparentemente não deixam marcas. Mas em cada dia o universo inteiro está presente. Ao descontarmos a cadeia infinitésimal de eventos que fazem um dia, ficamos só com uma abstracção sem conteúdos significativos. E tendemos a procurar efemérides que tragam colorido à nossa imagem de cada dia. E o tempo, visto assim, não é nosso, é uma máquina que nos devora, inexoravelmente e que põe de pé um mundo onde somos praticamente insignificantes.
Por isso muitos homens procuram o poder, ou mendigam a atenção dos outros para terem a noção de que são significantes, ou significativos (mas pode-se ser significativo por motivos péssimos, como ser-se Hitler ou Salazar, ou algo assim de monstruoso).
Quando logo soarem as badaladas (outra vez o relógio) do novo ano que começa. biliões de seres humanos estarão a colaborar na construção de uma gigantesca ilusão, pois cada homem tem o seu ritmo de vida. Haverá pessoas que estarão a entrar em novos ciclos da sua vida, outras estarão numa fase de estagnação, outras irão morrer daí a poucos dias, horas, minutos...
Mas, o que importa, é que cada momento é a hora certa para sermos felizes.
Porque não nascemos para a infelicidade: a nossa infelicidade nasce do nosso esquecimento. Em algum momento da nossa vida esquecemo-nos (ou induzem-nos a esquecer) de que somos felizes. E a partir daí julgamos que o sofrimento é o nosso estado natural, a nossa verdadeira condição.
Que a mudança que se vai operar no calendário possa ajudar-nos a sair deste esquecimento.

_________
"Como já vimos as aflições mentais não desaparecem por si mesmas; não desaparecem simplesmente com o tempo. Chegam ao fim apenas como resultado de um esforço consciente para as minar, diminuir a sua força e por fim eliminá-las em conjunto.

Se desejamos ser bem sucedidos, devemos aprender como nos empenharmos a combater as emoções conflituosas. Começamos a nossa prática do Dharma do Buda lendo e escutando mestres experimentados. É assim que desenvolvemos uma melhor compreensão da nossa situação actual no interior do círculo vicioso da vida e nos familiarizamos com os métodos possíveis que podemos praticar para o transcender. Esse estudo leva ao que se chama “compreensão derivada da escuta”. É uma fundação essencial para a nossa evolução espiritual. Depois devemos processar a informação que estudámos até chegarmos a uma profunda convicção. Isto leva à ”compreensão derivada da contemplação”. Uma vez obtida uma verdadeira certeza sobre o assunto estudado, meditamos nele de modo a que a nossa mente possa tornar-se completamente absorvida por ele. Isto leva a um conhecimento empírico chamado “conhecimento derivado da meditação.” Dalai Lama

Quarta-feira, Julho 19, 2006

As meninas e as bombas

















Esta imagem tem vários elementos "chocantes", mesmo tendo em conta a anestesia que os media provocam na nossa atitude de base perante o sofrimento das vítimas da guerra, banalizado pelas imagens e pelas notícias que repetem à saciedade o horror que a humanidade espalha pelo mundo.
Duas meninas israelitas escrevem mensagens em bombas prestes a serem largadas sobre o Líbano. A sua força destruidora a esta altura já dizimou vidas entre a população civil libaneza, não fazendo distinção de crianças, mulheres, idosos, guerrilheiros, homens, todos eles como nós!, como também são como nós as meninas que escrevem nas bombas. A nossa humanidade está profundamente envolvida no acto de escrever em bombas, e muito especialmente por se tratar de crianças que vêm ao mundo, e nele se mantêm enquanto as deixamos, sob o signo da inocência.
Ora, se estas crianças são como nós, também é verdade que nós somos como elas, embora a consciência disso nem sempre seja muito clara. E elas não estarão a fazer aquilo por sua iniciativa, pois alguém as conduziu a um local altamento vigiado e controlado por militares e lhes deu acesso às bombas e lhes apresentou como louvável o acto de escrever mensagens naquelas bombas. Há,portanto, uma sociedade inteira envolvida nos mecanismos da lógica de ódio e perversão da humanidade, a ponto de tornar natural vários actos contrários ao que seria natural, pois o que é natural é que os homens se esforcem por alimentar o amor e todos os comportamentos envolvidos na sua expansão.
Levar crianças a um local onde se prepara a guerra e fazê-las participar intimamente na guerra, tornando-a acessível ao seu imaginário e às suas emoções, talvez até no âmbito duma visita de estudo, mas não sei qual seria o caso retratado na foto, é um acto absolutamente contrário ao que deve ser a educação das crianças.
Mas não se pense que é só naquele caso e naquela sociedade que se promovem actos deste tipo, contrários ao que deve ser a educação. Mesmo entre nós estes actos são praticados sem problemas, com toda a naturalidade. A escola, só por si, pela forma como está estruturada, fomenta a destruição da humanidade inocente, ao impor às crianças modos de estar padronizados e enformados por concepções do mundo demasiado rígidas e, em quase todos os casos, insuficientementemente elucidados por uma reflexão integradora e clarificante.
A civilização ocidental foi-se gradualmente estruturando em torno de um conjunto de linhas de força que acabaram por erigir o mundo em que hoje vivemos.
A forma como nós nos vemos, em confronto com o mundo, com os outros homens, com a Natureza, depende dum conjunto de mecanismos profundamente enraízados no nosso psiquismo, que tornam a nossa mente num cárcere e destroem todas as possibilidades de vivermos em alegria. Vivemos ao sabor dos ditames erráticos e destrutivos do Ego. O "penso, logo existo", saído da fantasmagoria cartesiana, tornou-se progressivamente o fundamento de toda a actividade conciente dos seres humanos do ocidente, ou profundamente inflenciados pela civilização ocidental.
Estas bombas que nos chocam simbolizam a nossa atitude de base em relação aos outros: o confronto, o ataque, a agressididade...
Consideramos à partida que a nossa afirmação, em todas as áreas da nossa vida, passa por um ataque da posição dos outros, um ataque defensivo, como se o nosso ego estivesse constantemente em risco de perder o seu lugar ao sol. Mesmo que saibamos que a energia incomensurável do sol chega para todos e para cada um, achamos que o quinhão que nos cabe tem mais brilho e calor se os outros se virem privados da mesma parcela de luz solar. E se vemos que outros têm mais luz, parece-nos que a nossa parcela se torna insuficiente...
Por isso parece-nos mais fácil atacar do que aceitar as coisas como são na realidade.
Na verdade nunca olhamos os outros como a melhor parte do que somos, desde muito condicionamo-nos a encarar a vida como um sistema de trocas: dou-te atenção e tu retribuis, dando-me assim uma prova de vida e de valor.
Mas também é chato pensarmos que temos que ser compassivos com todos os seres humanos, mesmo com aqueles que estão do lado de lá da fronteira a apertar um cinto de explosivos. Não serão eles seres humanos também? Eles estão a preparar-se para nos fazer explodir e dão a vida na execução desse acto. Essa é a prova que todos perdem quando o ódio se torna mais forte que o amor, quando a vida é encarada como uma ocasião para fazermos vingar as nossas teimosias, os nossos ódios, as nossas frustrações.
Também é claro, claro como a água, que nós aqui neste robordo ocidental da Europa, vivemos num contexto diferente do das crianças da fotografia. Isso é verdade, trata-se dum contexto diferente, as nossas circunstâncias são diferentes, por isso as formas como não vivemos o amor e a compaixão são diversas, muitas vezes não exteriorizadas. Mas vivemos para cá da cortina de ferro com que a Europa da abundância se está a blindar contra a entrada de imigrantes vindos de zonas-problema e pouco estimadas do globo. Diariamante morrem pessoas a tentar atravessar desertos, extensões de água, muros de arame farpado, morrem afogadas, de exaustão, de fome, frio e sede, quase todas elas vítimas de redes mafiosas que lhes prometem o paraíso para lá duma viagem plena de riscos e sem os confortos que de barato damos ao gado.
Muitas guerras do Líbano, diariamente, sem o ribombar das bombas e a demência alada dos aviões de combate, sem os holofotes dos media, só com a nossa indiferença em relação ao sofrimento alheio.
E não precisamos do cinto de explosivos e da sujidade dos atentados. A indiferença mata com igual exactidão.
Por outro lado aceitamos com toda a naturalidade que os governos do lado de cá da cortina de ferro ponham em causa os direitos sociais, conquistados ao longo de mais de dois séculos de luta, em nome dum economicismo amoral e desumano que enche os cofres das multinacionais e das empresas que se dedicam à usura e à especulação selvagem.
O desmantelamento do Estado social, aliado ao uso totalitário dos sistemas democráticos, cada vez mais esvaziados de densidade político-moral, para a estruturação de projectos de poder mais relacionados com o vedetismo imediatista dos líderes políticos do que com o bem público, trará no próximo futuro um refinamento da indiferença individual e pública. Ver-nos-emos cada vez mais mergulhados numa sociedade do consumo e da fruição, onde ser fraco, doente, velho, deficiente, inconformista..., será visto como um escândalo insuportável, como uma contrariedade que há que descartar a todo o custo.
Todas as bombas do ódio, da indiferença e do adormecimento, ou embotamento, moral explodirão. E tal como as meninas da foto descobrirão, mais cedo ou mais tarde, com muita ou pouca consciência, acabaremos por descobrir que nós somos as principais vítimas da nossa indiferença, do nosso ódio, do nosso conformismo hedonista.

Terça-feira, Abril 11, 2006

O sofrimento


Uma das coisas mais difíceis é reconhecermos que a causa principal do nosso sofrimento, está em nós, é, em certa medida, nós, o nosso ego.
O ego toma conta da mente consciente e alimenta incessantemente uma corrente de pensamentos, anárquica, imparável, desgastante. Essa actividade pensante incessante desgasta-nos de forma inexorável. Sem que nos apercebamos disso. Julgamos que o desgaste energético resulta da actividade física, mas a actividade mental é muito mais desgastante.
E se durante a actividade física nos envolvermos nessa teia de pensamentos sem nexo, o desgaste é multiplicado. É que se acharmos que o que estamos a fazer é penoso, muito difícil, talvez injusto, porque há pessoas que podem dar-se ao luxo de não fazer coisas desta naturezam, etc., etc., estamos a torturar-nos sem razão.
Isto porque o que fazemos é algo que nos é dado e que, na sua radicalidade, não tem a ver com o que os outros têm ou não que fazer. A nossa vida, se for comparável a um filme, é uma super-produção em que nós somos os actores principais. Nada do que fazemos está fora do guião. Podemos improvisar, mas isso faz parte do jogo. O que não podemos é ceder o protagonismo a outro actor. Se fizermos estamos a desvirtuar o sentido de toda a produção. A nossa história é tão necessária quanto a história de cada um dos demais seres.
Por isso, o que acontece a cada momento, é uma cena duma história que tem um sentido que, muitas vezes, escapa a quem só dá importância a certos pormenores ou, o que é mais comum, a quem só dá importância aos pormenores, desligados do todo em que se inserem. O negativo ou positivo, dependem de factores muitas vezes ligados às apreciações egóicas. Para o ego tudo o que o limita é negativo. O silêncio, a imensidade, a entrega aos outros, a despreocupação, são coisas com as quais o ego se dá mal. Por isso fugimos delas.
É impressionante a aversão que a maioria das pessoas tem em relação à meditação. O mergulho na interioridade é recusado, muitas vezes em nome de coisas sem qualquer importância, ou completamente despropositadas. Há até a ideia de que meditar se opõe aos afazeres da nossa vida quotidiana.
Nada mais errado.
Meditar é a única actividade (para além do sono) em que se dá um excesso de energia, a energia que é consumida fica muito aquém da que é assimilida ou reintegrada nos nossos sistemas vitais. Há um re-equilíbrio de todo o nosso ser, um alinhamento dos centros energéticos e uma harmonização de todas as nossas funções, físicas, emocionais, mentais...
O sofrimento resulta da desarmonização vital. O que tem muitos níveis e gradações.
O que não devemos acreditar é que o sofrimento físico, as doenças que o provocam, é algo desligado da mente e do espírito. As doenças não são meros acidentes biológicos,lances da roleta genética e ambiental.
Também aqui a nossa atitude de base perante a vida é decisiva. O que fazemos e o que não fazemos reverte sobre nós, fazêmo-lo sempre a nós, mesmo que sejam os outros o seu alvo. Se uma pessoa me irrita, essa irritação, que tem origem em mim, provoca-me danos consideráveis a todos os níveis da minha presença no mundo. Pode perturbar a minha relação com o meio circundante, por exemplo, ao fazer com que eu evite os locais frequentados por essa pessoa, mas também pode manifestar-se a níveis mais entranhados. Isto porque ao rejeitar uma pessoa, estou a rejeitar-me a mim mesmo. Nã vivemos separados.
Por isso, a integração, ou o que em muitas tradições religiosas tem o nome de perdão, é a chave para evitarmos o sofrimento.
Se estou num sítio onde não queria estar, estou a recusar um momento da minha vida, estou a desligar-me duma parte de mim. Se estou a trabalhar, mas a minha mente está a pensar nas férias ou no que eu poderia estar a fazer nesse momento, se pudesse escolher ir para outro lugar, estou, de facto a criar cisão em mim, estou a rejeitar uma parte decisiva de mim, este momento da minha presença do mundo. Vivemos constantemente em dissossiação. Estamos, portanto, a matar-nos de uma forma permanente e irrevogável, enquanto nos mantivermos sob a ditadura do ego.
Não se trata de não exigirmos justiça e respeito. Trata-se de aceitarmos que somos imp0rtantes, seja qual for a situação em que nos encontremos. Se a realidade nos acolhe neste aqui e neste agora, é porque somos necessários, aqui e agora. Por isso, estamos sempre em ligação com a fonte primordial de tudo. À luz dessa fonte, ou desse princípio ontológico, todos os momentos da nossa vida são equivalentes. Nada é desprezível ou supérfulo. Estejamos a lavar a loiça ou nalgum lugar mediático a tentar salvar o mundo, estamos a fazer o que é preciso. São pequenos passos que nos levam a percorrer grandes distâncias. Por vezes é necessário saltar, correndo riscos, mas no fim do trajecto, contas feitas ao que fizemos, cada um dos momentos da caminhada é igualmente necessário.
Por isso, a preocupação com os desafios que teremos, ou não que enfrentar, é uma fonte de sofrimento, de apreensão, que é supérfula, como, aliás, todas as fontes de sofrimento. Se temos sede, não precisamos dum poço vazio. E se soubermos que um poço está vazio, não nos abeiramos dele quando temos sede. Por isso, os acontecimentos futuros, que não existem, não devem ser fonte de preocupação.
Devemos, sempre, perguntar: "o que é que eu tenho que fazer agora? O que é que eu posso fazer agora?"
Se podemos fazer algo, agora, para resolver algum problema, então devemos fazê-lo. Mas se tal não for possível, para quê desgartar-nos?

Sexta-feira, Março 17, 2006

O desapego



Para nos aproximarmos do âmago do existir, temos que criar distanciamentos, como quem navega num rio e se afasta das margens para melhor aproveitar a força da corrente.
Somos condicionados,desde que nascemos, a crer que precisamos de ajuda externa para desempenharmos todas as tarefas decisivas, que nos são exigidas pela vida.
Ficamos convictamente dependentes das circunstâncias, das pessoas, da "sorte".
Achamos que estamos afastados dum estado de graça que, desgraçadamente, e sem que nos apercebamos no estado de consciência em que normalmente enfrentamos a vida, é o nosso estado natural.
O universo foi criado, é-o continuamente, para nós. O big-bang inicial, chama pelo nosso nome, o nosso nascimento é uma convocação que se ouve desde o início de tudo. Como poderíamos, então, ser deserdados da sorte?
Ora, a verdade é que quanto mais apegados estivermos ao que irá acontecer, mais desligados estaremos do presente em que nos situamos a cada momento. E quanto mais apegados estivermos às coisas e aos processos que nos circundam, mais desligados estamos da nossa realidade como presença. Nós estamos presentes num presente. Essa é a nossa condição original.
Contudo, estamos sempre presos ao passado e às expectativas, muitas vezes carregadas de ansiedade, acerca do futuro.
Amar é deixar fluir o que se dá. Deixar a vida rumar ao sabor da corrente da energia pura de que todos os seres espirituais são feitos (no fundo, todos os seres são espirituais, pois a matéria é aquilo que serve de base para a manifestação do espírito) e de que se alimentam.
Amar não é uma forma de posse, mas de libertação. O bem mais precioso que podemos dar a quem amamos, é a liberdade, é a soltura.
Prender os outros às nossas carências e às nossas expectativas acerca de um estado que supere o presente, é o oposto do amor. Amar é recusar barreiras, assumir o infinito em nós, como uma vocação para a criação. E criar é aumentar o espaço vital do espírito.
Dar soltura é deixar os outros seguir o seu apelo. Todos são convocados. Poucos se apercebem disso. Pois a vida está carregada de sofrimento. E a maior parte das nossas crenças acerca da forma como tudo funciona, nasce do sofrimento. Há quem acredite em Deus por causa do sofrimento e, igualmente, muitos não acreditam em Deus pela mesma razão.
O sofrimento gera revolta e insatisfação. Coisas positivas quando enraízadas na vida, mas muito enclausurantes quando estão directamente à forma como encaramos o sentido da nossa vida, se a vida exigir mudanças na nossa forma de ver o mundo, essas mudanças devem ser feitas sem hesitações. Se nos assumirmos à partida como perdedores, então nunca iremos "ganhar". Mas no fundo não há nada mais para ganhar, pois a vida, ela mesma, é já o prémio, nós já estamos vivos, não há nada acima disso, nada mais para ser alcançado do que a vida em plenitude. Devemos, por isso, estar dispostos a perder, de forma irreversível, tudo o que nos afasta da plenitude da vida. Até a nossa situação actual. A vida um caudal de transformações.
O desejo não é mais do que um efeito colateral de estarmos vivos. Pode ajudar-nos a andar mais depressa para um objectivo, mas muitas vezes enleia-nos numa teia de expectativas e frustrações.
Por isso o desapego é a chave.
O desapego em relação às pessoas e às coisas, em relação às circunstâncias.
As nossas crenças sobre a realidade e sobre nós mesmos são a principal fonte de frustração (ou de fracasso).
As pessoas não são "nossas", nem as coisas. Nada é nosso. Em verdade. A realidade não tem como centro as nossas expectativas.
O ego é a fonte dos apegos.
O combate ao egotismo é o combate decisivo.

Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

somos mais...


Se nós tivéssemos plena consciência do que é um ser humano, o nosso deslumbramento perante qualquer um dos nossos semelhantes, qualquer um, seria duma grandeza tal que não resistiríamos a sentir-nos abraçados por uma força maior, que nos infundiria uma alegria tão intensa que nos percutiria quase até aos limites do suportável.
Trataríamos cada uma das pessoas com quem falássemos com a mesma deferência com que os súbditos tratam um rei, com que os fiéis tratam o papa, por exemplo. Pois o que têm esses homens a mais que qualquer um dos demais?
Do mais humilde sem-abrigo, ao mais poderoso dos homens, cada homem é uma centelha divina que traz o selo do infinito impresso na sua interioridade. Isto apesar das máscaras, dos muros, das fugas, das mentiras, das negações.
Se pudéssemos ver-nos, a cada momento, a partir do ponto de vista de quem está pronto a partir, de quem neste mundo não tem uma morada definitiva, de quem, enfim, tem que construir uma frágil jangada para enfrentar as correntezas da vida, daríamos muito mais valor ao que somos, em verdade. E veríamos os outros à luz dessa verdade radical.
Os bens materiais, o estatuto, as pequenas grandezas que insuflam o nosso ego com um falso sentido de superioridade, tudo isso tem a marca da efemeridade e acabará por se desfazer em pó. No entanto, muitos de nós guardamos no nosso coração recordações de coisas sem utilidade, simples, gráceis e altamente siginificativas: o sorriso duma criança num dia em que estávamos tristes, o primeiro beijo, um encontro com alguém que nos marcou, uma festa em que nos sentimos amados, um presente que nos fez reconhecer o valor da amizade... Se isso permanece, apesar da passagem dos anos, das mudanças que a vida foi trazendo, do envelhecimento, do cansaço, é porque é feito duma matéria que não se corrompe, antes nos enriquece. Talvez isso fique connosco durante mais tempo do que conseguimos imaginar...
E contudo há coisas que fazemos que nos impedem de ter mais experiências deste tipo. De cada vez que nos fechamos ao diálogo, estamos a criar barreiras que vão construindo uma prisão onde a nossa alma vai perdendo o uso das suas mais nobres capacidades. Tal como existem órgãos no nosso corpo que se atrofiam com a falta de exercício, na nossa alma há funções que ficam adormecidas. As consequências disso na nossa vida são tremendas, uma vez que nascemos com uma estranha característica: podemos tornar-nos naquilo em que acreditarmos.
Se acreditarmos que não temos coração e que a vida é uma competição em que devemos tentar tudo para sermos melhores que os outros, então seremos seres com uma deficiência cardíaca indiagnosticável pela medicina, mas que nos envenenará os dias e nos transformará em seres febris com uma vida miserável e árida. Por mais que tenhamos, estatuto, dinheiro, etc., etc., há um vazio sempre a crescer que acabará por nos precipitar para uma morte sem remédio e profundamente injusta, pois, aos nossos olhos, morrer será uma inconsistência da vida, irracional e imerecida. Mas está errado chamarmos morte apenas ao fim do processo, pois a morte é exactamente esse processo de mumificação a que nos submetemos ao longo da vida, primeiro em virtude daquilo a que se chama educação e, depois, através das escolhas egóticas que vão levando a que nos resumamos a uma animalidade industrializada.
Um ego entre egos, num mundo de fantasmas que odeiam a vida.
E há muita crueldade na forma como rejeitamos o valor intrínseco dos outros. Somos condicionados pela sociedade a conformarmo-nos às tendências dos grupos sociais que integramos. Vivemos muito marcados pela opinião dos outros e é muito fácil ir aí buscar uma pauta para dirigirmos as nossas escolhas. E assim rendemo-nos à conformidade e aqueles que não cabem nela são encarados como apátridas e indigentes. Muitos artistas, por exemplo, sofreram na pele a rejeição dos seus contemporâneos, precisamente devido ao seu inconformismo. Se alguém recusa viver sob os ditames do socialmente aceite, está a pôr em causa uma ordem estabelecida. Essa ordem visa transformar cada ser humano numa força de produção. Tal e qual uma máquina.
Ora, a produção está longe da criação.
De acordo com grande parte das tradições culturais o universo foi criado e não produzido. Mesmo o demiurgo do Timeu de Platão é um artífice, um criador e não um operário, mero produtor (re-produtor). E cria de acordo com modelos eternos. Pois criar é trazer à vida. Produzir é colocar no mundo, atirar para o mundo algo. Quem cria tem que nutrir, tem que se dar à sua criatura, ou criação. É um acto de amor. "Amor" num sentido pleno, sem exclusividade e sem os entraves que normalmente colocamos à força expansiva que se esconde nessa palavra tão dita, mas tão mal-dita.
Se as fábricas criassem não poluiriam, nem necessitariam da máquina imensa de produção de desejo a que chamamos publicidade. Também não pagariam salários de miséria. Na verdade não há dinheiro que pague o acto de criar.
O inconformismo dos artistas, dos poetas, dos loucos, dos génios, das crianças, é uma manifestação do poder criador. Todos os homens nascem com esse poder, pois o seu nascimento é um facto tão importante na história do universo quanto o big-bang de que fala a física. Nenhum homem nasce fora dos desígnios do universo. Todos os homens são convocados para acrescentarem algo, para ajudarem à Criação.
Mas com isto não estamos a esquecer os homens que se entregam ao mal. Também eles nasceram no seio da Criação. E a monstruosidade dos crimes, dos genocídios, da exploração do homem pelo homem reside precisamente na negação desta evidência ontológica: cada homem traz em si uma centelha divina.
E qualquer homem que detenha poder sobre outros homens deve lembrar-se constantemente que assumiu uma posição iníqua, ao julgar que manda, que pode limitar a divindade que veio ao mundo na pessoa de cada um dos seus semelhantes. É óbvio que as sociedades e as suas instituições têm que ser geridas. Mas o espírito de serviço deve ser a inspiração de cada indivíduo que assuma cargos de mando. A simples preferência dada a pessoas próximas é uma desconsideração de todas as outras e isso pesa.
No entanto, ninguém tem verdadeiro poder a não ser o de se orientar na vida. Quem nos governa, ou quem tem um qualquer cargo de chefia em relação ao qual estejamos subordinados, não manda verdadeiramente no nosso poder de sermos quem podemos ser. Pois o que dita as nossas obediências aos poderes fácticos da vida não é o mais importante de nós. A nossa melhor parte vive para além disso. É parte integrante do infinito.
Poderemos ser governantes, governados, milionários ou mendigos que nenhum desses estados será mais ou menos à luz do que somos em verdade.
E como poderemos descobrir o que somos em verdade?
É simples. Basta que prestemos atenção ao que em nós é perecível. Posso ter, por exemplo, um cargo de prestígio, posso ter estatuto e meios de fortuna consideráveis, mas basta uma coisa simples como um derrame cerebral para destruir essa situação. Posso tornar-me numa pessoa dependente e incapacitada de levar a vida que levei até aqui... Mas aquilo que sou em verdade não poderá ser diminuído ou limitado. Embora na prática a minha atitude perante a vida acabe por me limitar no contacto que tenho com esse fundamento daquilo que sou.
Isso é o pior que nos pode acontecer. Morrermos de sede à beira da mais deslumbrante fonte de água fresca.

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

nadifonia


No lado de dentro da noite
as esquinas das coisas são de gelado de limão
quase a brilhar de tanto tempo a derreter
e as bocas de sermos com a altivez de papel de embrulho
sorvem o silêncio gota a gota até à saciedade possível
nas horas de pranto lento em banho-maria
de solidão e ovos escalfados com universos por nascer
a boiar-lhes na gema quase a solidificar
e a fome não cessa
a fome de ter uma pele que voe para lá dos espaços do contentamento
vela de ir ir à Índia retesada no mastro de querer vencer o tempo
e a quietude da melancolia das árvores
e os olhos
são dois buracos na parede do peep-show da vida
moeda a moeda
a realidade despe-se e mostra a sua nudez sem ternura
pássaro morto na gaiola dourada do desejo
não ter um eu
é uma saída
a chave é a alegria de nada querer

Sábado, Fevereiro 18, 2006

This side up


Como sonâmbulos, os homens arrastam-se, muitas vezes, pela vida, como se não estivesse em seu poder alcançar a felicidade que lhes vem bem entranhada na alma. Quando nascem tornam-se densos, enraízam-se na matéria e fazem com ela um pacto de não-agressão. "Eu acredito na materialidade da vida e a matéria cuidará de me dar tudo aquilo de que necessito".
Desta asserção até à rendição completa a uma vida desligada de qualquer fonte de sentido, vai um pequeno passo.
A matéria é bruta. E é brutal. Se nos acreditarmos materiais, encarar-nos-emos sempre como imperfeitos, como seres carentes e insatisfeitos. É que no mundo material há sempre mais coisas que nos faltam do que aquelas que temos. E as pessoas, quando são integralmente materiais (aceitando isso como possível), vivem em função do seu ego. E nunca se dão incondicionalmente. Com medo de se perderem de si e do seu projecto de vida que, como no caso das formigas, consiste em acumular bens materiais e "respeito" por parte das outras formigas.
Crescer é uma espécie de convalescença.
Quando nascemos o impacto da nossa vida ao mundo é terrível.
Descobrimo-nos presos a um corpo que é menos subtil e muito menos rápido e ágil que a nossa consciência. O pensamento cedo se tem que condicionar às formas rígidas da nossa acção material. Com bastante decepção descobrimos que só podemos interagir com os outros se aceitarmos aprisionar o nosso pensamento na prisão labiríntica duma língua. E essa língua obriga-nos a restringir o nosso mundo ao horizonte do dizível.
Isso é um trauma terrível.
É como se, ao nascer, tivéssemos sofrido um acidente terrível e nos descobríssemos, todos engessados, num centro de fisioterapia. Toda a nossa infância corresponde a um esforço constante para aprendermos a viver com essas limitações funcionais. E há mecanismos sociais infalíveis nesse processo. A escola, a família, a televisão, a moda, o consumismo, etc.
Pela adolescência já não acreditamos na possibilidade de recuperação. Pois já nos esquecemos do que éramos antes do "desastre".
E vivemos neste sonambulismo profundo. Virados para fora, exilados de nós próprios, do nosso eu verdadeiro, que, paradoxalmente, não é um "eu", mas uma abertura para o infinito.
Se acharmos que algo nos falta, então estamos a viver sob o domínio do ego, na escravatura da consciência finita, encerrada nas crenças e nos hábitos dum eterno convalescente.
Por isso, educar deveria ser des-formar. Libertar as pessoas de todas as formas limitativas do seu destino excessivo. Mas primeiro temos que nos libertar a nós.
Não acreditando em tudo o que nos diga que somos mínimos, que somos infelizes, que algo nos falta.
A frustração mata. De muitas maneiras. Há pessoas que matam por frustração, outras matam-se pelo mesmo motivo, outras, ainda, adoecem e não conseguem viver-se em plenitude.
E uma das coisas que são mais urgentes é levar as pessoas a pensarem por si próprias, não de acordo com a razão ensimesmada, mas com a alma toda, com o coração e com todas as células do seu corpo.
Sonhar deveria ser a única obrigação de cidadania. Amar, o único mandamento moral.
Quem sonha não precisa de se entregar a formas destrutivas de ir para além das limitações da vida material e egóica.
Quem ama, vive em autenticidade.
E todos deveriam ter direito à solidão.

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

alienação


Nós somos,ao nível da consciência egóica, aquilo em que acreditamos.
Nós somos, a esse nível, o que acreditamos ser. Se acreditamos ser doença, somos doentes, se acreditamos ser tristeza,somos tristes, até nas mais ínfimas coisas da vida quotidiana, como comprar um bilhete de autocarro, por exemplo. Tristemente compramos um bilhete, vergados pelo peso do preço injusto e recém-aumentado... E, nesse caso, não nos faltarão razões para acreditarmos na tristeza da nossa vida: somos governandos por marcianos e esse facto é indesmentível, como poderia? Qualquer dia o senhor Spielberg e o inenarrável Tom Cruise ainda vêm cá filmar uma sequela da guerra dos mundos...
Ainda há dias uma senhora que está à frente do ministério da educação dizia que as aldeias onde vão fechar escolas já estão mortas.
No passado,ou noutras paragens mais acaloradas, os tiraninhos usavam outros meios, menos eufemisticos, para se fazerem respeitar.
Mas vivemos na era do neoliberalismo sem ética. Tudo é permitido em nome do défice. E, de facto, o défice de humanidade aumenta a olhos vistos. Essa gente não tem espelhos? Nessas aldeias que estão "moribundas" que, nesta voragem de insanidade que assaltou a nossa casa comum, vão ver a sua escola fechar em nome da lista do merceeiro-mor e do progresso dos TGVs e das Otas e das Opas hostis abençoadas por quem (des-)manda, nessas aldeias ainda se vive a sério, luta-se pelo possível.
Eu, no que me toca, recuso-me a acreditar na tristeza. Esta gente que paira acima da cabeça do povo, é triste, é verdade. Mas o seu exemplo faz-me acreditar cada vez mais na alegria.
No meu coração mandam os que lá estão. E esse é o único governo que interessa.
E, de resto, nada pode impedir-me de ser livre. Não falo daquela liberdade muito
servil de quem anda por aí e faz o que quer, e assim, mas a liberdade de me acreditar irmão do vento, do sol, da madrugada e dos pardais.
Tudo coisas que não pagam Iva.
Nem tapam o défice. Porque são excessivas.
Quem se acredita pequenino, quem se acredita deficitário, é, pequenino e deficitário em virtude de um capricho seu. Porque todos nós somos imensos, mesmo aqueles que se julgam mais do que os outros, e assim se apoucam, e querem decretar o fim de aldeias centenárias.
Mas deixemos os loucos entregues as seus legítimos devaneios. É certo que estão a delapidar o nosso futuro material. Isso é inegável. Mas mesmo assim estão entretidos com coisas fúteis. E enquanto viverem entretidos o mundo vai-se livrando dos campos de tortura e das inquisições que acendem fogueiras. Se bem que nesse campo exista muito a fazer. Por isso, a globalização que avance, que o progresso neoliberal se instale por todo lado. Assim os tiraninhos do século XXI dos decretos e das bulas, terão, em todo o lado, o seu parque de diversões. E os povos serão deixados e paz, para viverem a sério.
Quanto ao fecho das escolas, talvez seja essa uma medida muito acertada, no desacerto de quem a decreta por raiva, por pura raiva, pois as pessoas atrevem-se a viver fora dos padrões dos engomadinhos intelectuais da esquerda pós-moderna.
Quando todas as escolas fecharem, quando todos os homens, sem excepção, assumirem como sua missão existencial a educação de si próprios e a compaixão para com todos os outros, quando deixarmos de ter centros de detenção infantil, centros de domesticação do futuro, então, ninguém acreditará na tristeza.
Mas até lá talvez os tristes possam dar umas voltinhas de comboio de alta velocidade. Deve dar um belo passeio domingueiro. E não custará muito arranjar um farnel e juntar o montante necessário para os bilhetes. Isto se não se for funcionário público ou psicopata dos jornais da tvi. Esses ainda terão de prestar contas aos gestores do parque de diversões. Talvez possam ir dar umas voltitas no comboio-fantasma que neste momento está ancaixotado à espera doutro local para instalação da feira popular. Que tal nos jardins do palácio de S. Bento?

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

almas que se tocam


quando somos um
o coração é pleno de espaços
um rio corre-nos pelos braços
e a música das esferas
é a harmonia de estarmos ambíguos
na sintonia que acalma as esperas
as sedes e as inquietações
quando o tempo
é uma ponte
temos em nós a fonte
que resgata o cosmos do nada
no instante e da agonia
do amor ter que ser cumprido
e nos meus cabelos a madrugada
do teu hálito distante
semeia ecos do tempo do olvido
e tudo é cortante
a água duma fonte
o que está para lá do manto da noite
a saudade
e a morte é o reverso do silêncio

Quinta-feira, Janeiro 19, 2006

A comunicação


A comunicação está no centro do actual desenvolvimento do mundo. A chamada “aldeia global” está cada vez mais pequena. A aldeia dos nossos avós era incomensuravelmente maior, com um tempo ritmado pelo despertar dos pássaros assim que se ouvia o primeiro galo e pelo gargarejo dos cântaros na fonte de água fresca. O sino fazia-se ouvir sempre que atenção de todos era requerida para a resolução de qualquer problema ou para o cumprimento dos rituais.
Mas não estou a fazer a apologia da vida campestre, nem me motiva qualquer bucolismo assente na recusa do progresso. Esse tipo de atitude ceifou muitas vidas e multiplicou a dor e a miséria, obrigando milhões de pessoas a emigrar.
O que está em causa nesta comparação é algo de muito profundo. É o modo como somos e como construímos a nossa humanidade, como nos damos aos outros e à vida, ou como não nos damos.
Comunicar é, acima de tudo, comungar, partilhar com os outros o que nos faz crescer, abrir espaços de humanidade e de encontro autêntico com o que nos convoca para um aqui e um agora. A diversidade é, assim, uma chave de valor incomensurável. Não devemos criar em nós a necessidade de projectarmos nos outros as nossas frustrações, de querermos que o mundo se torne num campo de concentração dominado pelo único ditador verdadeiramente iluminado e supremamente bem-intencionado: o nosso ego, senhor absoluto dum reino fantasmático criado à imagem e semelhança do que nos falta e que queremos exorcizar a todo o custo.
Daí derivam todos os moralismos. Herdámos a tendência nefasta de nos recusarmos o prazer e de considerarmos que não deve haver prazer na diversidade, alegria na diferença. Queremos que todos os demais descubram que nós somos em verdade, por um acaso da história, ou por uma predestinação sublime, que nós somos verdadeiramente o que um homem (ou uma mulher, é claro) deve ser. Em suma, a nossa maneira de ser, em todos os sentidos, deve tornar-se numa ortodoxia. A nossa suprema sapiência deve derramar-se sobre a cabeça dos demais, agradecidos, embevecidos, curvados na sua ignorância sebenta, sedentos da verdade que despontou em nós.
Por isso qualquer bocejo é uma ofensa, cada objecção, uma calúnia.
Um segredo que aprendi com o meu avô materno talvez mostre a grandeza do viver da aldeia em que ele nasceu e cresceu: enquanto se sucederam as figuras régias e os ditadores, as pessoas simples do povo ficavam livres da ilusão de querem ser mais que os outros, da sua aldeia. O senhor doutor vivia numa casa apalaçada e passeava-se à tarde pela rua principal da aldeia e recebia cumprimentos e deferência, os homens de chapéu ao peito e as mulheres com os olhos no chão. E esses mesmos homens e essas mulheres seguiam assim para a sua vida, onde se encaravam como iguais, na desgraça e na simplicidade. E por vezes lutavam contra as calamidades, acompanhavam os moribundos com aconchego e com a mesma humanidade com que mudavam a palha dos animais, com a humildade e a constância das pessoas simples.
Noutras paragens, esses mesmos homens e essas mesmas mulheres apedrejaram a guarda e foram ceifados a tiro. São coisas da luta pela dignidade.
Mas hoje as pessoas parece que engoliram o senhor doutor. Vêm de fábrica com ele bem entranhado na psique, sempre em agitação frenética e em busca de “respeito”.
E em todos os senhores doutores, principalmente nos visceralmente entranhados em cada um, há um ditador em potência.
Comunicar, nesse sistema de ser-se, é declamar sentenças, decretar bulas e dogmas, ser “Alguém”.
Por isso a qualidade da vida na nossa aldeia é, globalmente, pobre. Miserável, mesmo.
Milhões de egos em busca de reconhecimento. À janela dos seus palácios de faz de conta. Windows, Windows, Windows, janelas, janelas, janelas, todos querem janelas para o mundo. O mundo é uma praça imensa rodeada por janelas. As portas estão encerradas ou até já não existem e o Sol já não vem beijar a face destas criaturas que se querem imunes a tudo o que evidencie a sua pequenez, fechadas à imensidade. Se Freud tivesse que ter razão, poderíamos dizer que a humanidade dos nossos dias ficou refém do estádio anal, tal é a fixação de cada um no seu tubo digestivo mental. Como aquele miúdo de um dia engoliu uma moeda de 25 tostões e viu as suas fezes, por ordem médica, exaustivamente remexidas. Foram os 25 tostões mais valiosos que essa criança viu na sua vida, porque passaram pela provação mágica da sua interioridade. Ainda hoje figura, com destaque, na caixa das relíquias da família.
Muitos aparelhos, daí a maravilha desta era tecnológica, permitem que o nosso ego se projecte à distância. Mesmo as nossas chamadas no telemóvel conseguem dispersar-se para além da atmosfera terrestre. E isso não é pouco. Vestígios da nossa existência poderão ser detectados por hipotéticos seres inteligentes fora da terra. E o seu grau de inteligência será proporcional, como é óbvio, à sua capacidade de se conectarem com o nosso ego.
Esta projecção à distância e as maravilhas que ela traz, torna cada vez mais difícil que consigamos livrar-nos de nós, da nossa ditadura sobre a vida em nós. Pelo que a fortuna dos Gates deste mundo continua mais do que assegurada.
Enquanto isso o planeta definha. As baterias dos inúmeros aparelhos de assistência ao egotismo, a poluição resultante da queima de combustíveis fósseis, no frenesim industrial de manutenção do imperialismo do fantasma que é, a consumação em grande dum cartesianismo pequenino, dos pequeninos, tudo isso, juntamente com tudo o mais que seria fastidioso aqui referir, está a destruir a Natureza.
O que é bom, porque o ego da malta ecologista tem com que se alimentar.

Quinta-feira, Dezembro 01, 2005

"Diz sim à vida"


Se nos fechamos à vida estamos a quebrar a corrente que une tudo, estamos a deixar que a energia que há no existir fique aprisionada, como a água num charco. E ficaremos mergulhados num pântano, a nossa consciência separada, criadora de cisão…
A negatividade é o nosso pior inimigo. Se chove e achamos que isso estraga o nosso dia, se faz sol e achamos que isso é mau por causa da falta de Ozono nas camadas superiores da atmosfera, se chegamos tarde à estação e achamos que “perdemos” o comboio… isso pode dar lugar a uma sucessão de “males” que acabarão por alimentar o que, conjuntamente com a frustração, mais nos destrói por dentro: a auto-comiseração.
Se nós sentimos pena de nós próprios queremos ser o centro da atenção dos outros. Achamos mesmo que os outros têm o dever de reparar na nossa tristeza e de reagir a ela, confortando-nos e quando isso não acontece, sentimo-nos injustiçados e a nossa revolta aumenta e com ela a negatividade que esteve na origem de tudo. Não há nada mais triste do que isso, vermos alguém que nasceu para ser gente, que foi trazido à existência para fazer parte da harmonia cósmica, reduzir-se à condição de erro existencial. E quando respeitamos essa pessoa e até recebemos por seu intermédio alguns ensinamentos bem significativos, a coisa torna-se ainda mais “triste”.
Mas a nossa sociedade funciona assim, alimenta-se da tristeza. Nós somos como abutres da desgraça alheia: paramos na estrada para vermos as consequências dos acidentes (no Verão os bombeiros chegaram a queixar-se que os mirones obstaculizavam a sua acção no combate aos incêncios), e não perdemos uma ocasião para mostrarmos o quanto temos pena de quem sofre, seja aqui bem ao pé, seja nalgum escaldante deserto acossado pela fome (que começa, paradoxalmente “aqui” onde as pessoas morrem aos milhares por causa de excessos alimentares).
Muitos dos nossos “problemas” desapareceriam se lhes prestássemos a mínima atenção, se os olhássemos de frente. O que não está em nosso poder não deverá ser para nós um “problema”. Mesmo as situações que nos causam tristeza podem requerer de nós uma atitude de maior atenção ao que se passa em nós e à nossa volta. O “à nossa volta” é muito menos importante do que o que se passa “em nós”.
Não faltam pessoas que se aproximam de nós quando apregoamos a nossa desgraça. Mas o mais importante é vermos que pessoas se alegram com a nossa alegria. É que a negatividade que se instala no coração dos homens desperta um monstro terrível que tudo fará para perpetuar a desgraça e a negatividade: a inveja.
Não sentir inveja é um dos principais sintomas da nossa felicidade. Se somos felizes não sentimos inveja.
Se a vida se resumir a uma guerra de Egos, a uma disputa pela conquista de estatuto e de reconhecimento, então estamos perdidos. Estamos a desbaratar o capital com que fomos investidos pela existência: o sermos capazes de nos admirarmos com o espectáculo do mundo, o sentirmos o apelo do infinito em cada coisa que se nos apresenta…
E o mais é “lixo”, é poluição antropológica

Sábado, Novembro 19, 2005

allegro maestoso


quantos céus trago dentro de mim
travo de infinito e ferida de estar aqui
quantas nuvens de brancura intocada
quantas melodias da vida ser só o que se dá
é uma vertigem os sonhos alados as mãos em chama
e quão grande a pequenez de ser com os pássaros de haver tempo
imensidade a florir no interior de nada querer
quanta força que mal se sente
no longe percute o som das gotas das lágrimas do desejo
a fenda de ter nascido
quantos oceanos engole minuto a minuto
é insaciável
traz aromas de outras praias de depois da ida
e é uma boca de espanto a cantar o caos da harmonia
e quero cavalgar o corcel de haver tristeza no rebordo do sol ausente
rumo ao sem fim que me habita
sombra que se apega às paredes de querer ser mais
fazendo tardes de ontem na esperança que se me acendeu no peito